Para entender melhor a doença de Alzheimer

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A Doença de Alzheimer, que causa degeneração do cérebro, atinge mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo – no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer, mais de um milhão de homens e mulheres acima de 60 anos sofrem com o problema. Causada pela mudança na conformação de uma proteína, a doença está intimamente ligada à biologia molecular. Auxiliados pelos avanços nessa área, pesquisadores brasileiros tentam entender como a alteração estrutural protéica afeta as células nervosas.

 

Os doentes de Alzheimer apresentam, entre outros sintomas, problemas de memória, dificuldade para realizar tarefas habituais e para se comunicar, desorientação no tempo e no espaço, diminuição da capacidade de juízo e de crítica, dificuldade de raciocínio e alterações freqüentes do humor e do comportamento.

 

“Esses sintomas são o resultado de mudanças na estrutura de uma pequena proteína, chamada peptídeo beta-amilóide, e sua agregação”, explica o professor Sérgio Ferreira, que há 10 anos estuda o problema no Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ. A Doença de Alzheimer faz parte de um conjunto de doenças chamadas conformacionais, que estão relacionadas com alterações na estrutura (ou seja, na conformação) de proteínas.

 

De modo geral, no indivíduo com esse tipo de enfermidade – que inclui o Parkinson e a Diabetes tipo 2, entre outras –, uma determinada proteína sofre uma mudança de conformação e gera agregados que são tóxicos ao organismo. No caso da Alzheimer, os agregados são tóxicos para os neurônios. Na Diabetes tipo 2, o pâncreas, que produz a insulina, é atingido. Há ainda doenças em que podem ser atacados o coração, o fígado, os rins, etc.

 

A equipe de Ferreira estuda diferentes doenças conformacionais, mas tem o foco na Alzheimer. Os pesquisadores querem entender como a conformação e a agregação da beta-amilóide afeta os neurônios. “Na verdade, esse peptídeo é o fragmento de uma proteína maior, chamada proteína precursora de amilóides. Ela está presente na membrana dos neurônios e tem funções importantes na formação do sistema nervoso central. Só que, em algumas circunstâncias, com o envelhecimento e particularmente nos pacientes com Alzheimer, ela começa a ser cortada por duas enzimas, conhecidas como secretases, liberando um pequeno fragmento, o peptídeo beta-amilóide”, diz Ferreira.

 

Esse peptídeo acaba se aglomerando no meio extracelular do cérebro, dando origem a agregados que são tóxicos para os neurônios. As pesquisas na UFRJ tem dois focos: por uma lado, tenta entender como e por que o peptídeo agrega. Por outro lado, quer saber quais agregados são mais tóxicos: os formados pelo peptídeo no estágio inicial, que ainda são solúveis, ou as fibras amilóides.

 

“Conhecendo-se quais os mecanismos de agregação e quais espécies agregadas são mais tóxicas, pode-se tentar desenvolver drogas ou tratamentos que possam impedir a agregação ou que protejam os neurônios dessas espécies tóxicas”, justifica o pesquisador.

 

Graças aos esforços da equipe e a importantes suportes financeiros – como o do filantrópico Howard Hughes Medical Institute, que financiou o trabalho do grupo durante 10 anos, do CNPq, da Faperj e de uma parceria da Finep com o laboratório Eurofarma –, o grupo focalizou o projeto na área de desenvolvimento de drogas e chegou a diversas substâncias que tiveram bons resultados in vitro. Ou seja, em modelos de culturas de células, esses candidatos a novas drogas protegem o neurônio da toxidade dos agregados. Em alguns casos, inclusive, já foram feitos estudos em animais.

 

Entretanto, nem sempre as condições de pesquisa são ideais. Ferreira conta como sua equipe driblou a necessidade de se trabalhar com animais transgênicos nas pesquisas: “para testar drogas, trabalhos com Alzheimer normalmente usam camundongos que tenham duas ou três mutações genéticas que levam a sintomas semelhantes aos observados no Alzheimer. Como não dispúnhamos desse modelo, tivemos que inventar outras maneiras de obter os mesmos resultados. Por exemplo, injetando o peptídeo beta-amilóide em animais saudáveis”.

 

Após oito anos sem o modelo transgênico, recentemente o grupo conseguiu o apoio de um projeto do CNPq e do Ministério da Saúde para importar os animais, que estão temporariamente na Escola Paulista de Medicina, em São Paulo.

 

O avanço nas pesquisas com o Alzheimer vem provar o que Ferreira faz questão de salientar: “A Alzheimer não é um mal! É uma doença”. E, como tal, pode ser entendida pela ciência.

 

 

 
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